14 de janeiro de 2026
Menstruação: conversa que protege, informa e fortalece vínculos.
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Falar sobre menstruação não é “adiantar assunto”, é preparar. É proteger. É evitar medo, culpa, confusão e insegurança. Esse tema precisa entrar na vida das crianças com naturalidade, antes mesmo do primeiro sinal do corpo.
Com as meninas, o ideal é começar a conversar entre os 7 e 9 anos, de forma simples e tranquila. Dizer que o corpo vai crescer, vai mudar e que um dia vai sair um sangue que é normal, que isso se chama menstruação e significa que o corpo está saudável. Quando essa conversa não acontece, a primeira menstruação vira susto. Muitas meninas acham que estão machucadas, doentes ou que fizeram algo errado. Já chegaram até mim casos de mães que reagiram com punição por falta de informação, acreditando que aquilo significava algo que não era. Isso não nasce da maldade, nasce do desconhecimento, mas a dor emocional que fica pode marcar profundamente.
Falar antes evita medo e pânico, evita confusão sobre o próprio corpo, fortalece o vínculo de confiança com a família, ensina autocuidado e proteção e mostra que o corpo da menina não é errado nem sujo. Menstruação não é sinal de “virgindade perdida”. Menstruação é sinal de crescimento do corpo, de que ele está entrando em uma nova fase do desenvolvimento.
E com os meninos, por que falar? Porque eles vão crescer convivendo com mulheres: irmãs, colegas, namoradas, esposas, filhas. O jeito que aprendem agora define se serão homens respeitosos ou homens que vão tratar o corpo feminino como piada, tabu ou vergonha. Com eles, a conversa também pode começar entre 7 e 9 anos, explicando que menstruação é algo natural do corpo feminino, que não é doença, não é sujeira e não é motivo de risada. Isso diminui o bullying na escola, ensina respeito ao corpo feminino, ajuda a criar homens mais empáticos, combate o machismo e mostra que cuidar também é responsabilidade deles. Menino que entende, respeita. Menino que não entende, ri, julga e machuca.
Quando a família se cala, a internet fala. Quando a família orienta, a criança se protege. Menstruação não é assunto só de mulher, é assunto de família, é assunto de educação, é assunto de proteção. Falar antes evita traumas depois. Falar com amor evita marcas emocionais. Falar com verdade fortalece relações entre mães e filhas, pais e filhos, meninos e meninas. Informação não tira a inocência, informação constrói segurança.
Quando a mãe está menstruada, aquele momento simples já vira educação. Mostrar o absorvente, explicar para que serve, dizer que ele é usado para cuidar do corpo, para manter a higiene, para que a mulher possa seguir sua rotina com conforto. Explicar que aquele sangue não é machucado, não é doença e não é motivo de vergonha. É o corpo funcionando, é a natureza do corpo feminino. A criança aprende vendo, ouvindo e sentindo segurança no tom da mãe.
Aproveitar esses momentos do dia a dia é muito mais poderoso do que uma “aula formal”. É ali que a filha entende que pode perguntar, que não vai ser julgada, que não vai ser repreendida. É ali que ela constrói a confiança para, quando chegar a vez dela, conseguir dizer: “Mãe, aconteceu comigo.”
Quando essa conversa não existe, a menina cresce sem vocabulário para falar do próprio corpo. E quando algo novo acontece, ela não sabe explicar. Muitas vezes isso gera confusão, interpretações erradas e reações duras que poderiam ser evitadas com diálogo e informação. No final, não havia nada além de um corpo começando seu ciclo natural. O erro nunca é da criança, é da falta de conversa.
Por isso é tão importante dizer que falar sobre menstruação é responsabilidade da família, principalmente das mães, porque somos nós que, na maioria das vezes, vivemos isso de perto com nossas filhas. Nós viemos de uma geração marcada pelo silêncio, pelo tabu e pela vergonha. Muitas de nós também não tivemos explicação, só susto. E agora temos a chance de quebrar esse ciclo.
Quando a mãe fala, a filha se sente protegida. Quando a mãe explica, a filha se sente segura. Quando a mãe normaliza, a filha não carrega culpa.
Com os meninos, esse mesmo diálogo precisa existir dentro de casa. Eles precisam crescer entendendo que a menstruação faz parte da vida, que não é algo sujo, estranho ou vergonhoso. Precisam aprender que é apenas o corpo feminino funcionando. Isso constrói respeito e empatia e impede que esse assunto vire motivo de constrangimento no futuro.
Menstruação não precisa ser um grande evento para ser falado. Ela pode ser apresentada na rotina, no cotidiano, no banheiro, no quarto, no mercado ao comprar absorvente. Tudo vira oportunidade de educação.
Quando a gente fala antes, a criança entende melhor quando chega a hora. Quando a gente fala com calma, a criança não entra em pânico. Quando a gente fala com amor, a criança não carrega vergonha. É assim que a informação vira cuidado. É assim que o diálogo vira proteção.
Além de ensinar o que é a menstruação e como cuidar do próprio corpo, é importante que, principalmente na adolescência, as meninas entendam que existem realidades diferentes dentro desse tema. Nem todas têm acesso fácil ao absorvente. Nem todas conseguem comprar todo mês. E isso não é descuido, é a realidade de muitas famílias. Falar sobre isso é ensinar empatia, consciência social e também fortalecer a noção de direito. Menstruação não é luxo, é necessidade básica.
Quando a menina cresce sabendo disso, ela entende que, se um dia faltar para ela ou para uma amiga, não é motivo de vergonha, é motivo de buscar ajuda. Hoje existe apoio. O governo fornece absorventes gratuitamente através das farmácias populares. Basta ter cadastro no Gov.br e no Cadastro Único, feito no CRAS. Com isso, é só ir até a Farmácia Popular mais próxima e retirar. Informação assim garante dignidade menstrual.
Também é essencial ensinar sobre o descarte correto. Absorvente não deve ser jogado no vaso sanitário. Ele precisa ser embrulhado em papel ou na própria embalagem e colocado no lixo. Isso evita entupimentos, mau cheiro e problemas ambientais. Cuidar do corpo também é cuidar do espaço em que se vive.
E conforme a menina cresce, principalmente na adolescência, ela pode conhecer outras formas de cuidado menstrual. Hoje existem várias opções além do absorvente tradicional, como o coletor menstrual, o absorvente interno e a calcinha absorvente. Cada corpo se adapta melhor a um tipo e não existe certo ou errado. O importante é que ela saiba que existem escolhas e que todas são válidas quando usadas com orientação e higiene.
Essa conversa não precisa ser pesada. Ela pode acontecer aos poucos, conforme a maturidade da criança aumenta. Primeiro entendendo o que é a menstruação, depois aprendendo sobre o cuidado, depois sobre o acesso, o descarte e as opções. Tudo no tempo certo.
Ensinar sobre menstruação é ensinar sobre dignidade. É mostrar que o corpo merece cuidado, respeito e informação. É preparar meninas para se protegerem, se cuidarem e também olharem com sensibilidade para a realidade de outras meninas.
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