09 de abril de 2026
Gravidez na adolescência: um desafio de saúde e segurança pública.
Eu engravidei aos 13 anos de idade, e isso foi um marco muito forte na minha infância e na minha vida. Porque quando a maternidade atravessa a vida de uma mulher, ela muda tudo. Ela muda o corpo, ela muda a saúde e influencia para o resto da vida. Quando ela chega de forma precoce, ainda na infância, ela por um tempo paralisa a vida daquela menina e, às vezes, até determina o futuro dessa criança que está carregando outra e da que está na barriga.
Eu mudei a minha vida. Atualmente trabalho como educadora sexual, meu filho vai fazer 13 anos, tudo isso já passou, mas isso aconteceu em 2013. Hoje nós estamos em 2026, e os dados nacionais nos mostram que não acabou e está longe de acabar.
E o que seriam as ações que poderiam influenciar nessa falta de segurança pública? Porque isso é, sim, uma falta de segurança pública. Quando a menina cresce em vulnerabilidade, quando ela não é assistida, quando a informação é falha ou incorreta, nós estamos falando de uma falha coletiva.
Quando a gente fala sobre educação sexual, muitas pessoas pensam que vamos ensinar o jovem a ter relações, mas muito pelo contrário. A gente ensina sobre o corpo, sobre as emoções, sobre respeito, limites e direitos.
Então, quando uma gravidez precoce acontece, todos nós, enquanto sociedade, falhamos. Porque existe o Estatuto da Criança e do Adolescente, existe proteção prevista em lei. Existe até um provérbio que diz que é preciso uma aldeia inteira para cuidar de uma criança. E o próprio estatuto fala que é dever da família, do Estado e da sociedade cuidar dessa criança. Ou seja, todos nós falhamos quando essa proteção não chega.
E qual é o caminho para a solução? A orientação correta. Falar sobre preservativos, falar sobre emoções, sobre limites. Quando eu falo para a minha filha sobre como ela deve se comportar, quando eu falo para o meu filho sobre como ele deve respeitar uma mulher, quando eu ensino sobre responsabilidade, eu estou prevenindo.
Quando eu falo sobre a importância de cuidar do nosso corpo, a gente evita, inclusive, situações de abuso. Porque, segundo a lei, ainda que uma menina de 13 anos diga que escolheu ter um relacionamento, ela não tem esse discernimento. E quando há um adulto envolvido, isso se torna ainda mais grave. Pela lei, isso é considerado abuso.
Então até que ponto a gente pode normalizar essas situações? Será que não precisamos olhar para isso com mais responsabilidade? Porque, geralmente, essas situações acontecem em locais de maior vulnerabilidade. E também é nosso papel denunciar, orientar e agir.
Quando a gente introduz a educação sexual com respeito, respeitando cada fase da vida, a gente alcança a prevenção com muito mais eficácia. Porque quando eu conheço os meus limites, quando eu conheço os métodos, quando eu entendo o respeito, eu consigo adiar esse momento.
O silêncio não protege. O não falar sobre sexo, sobre o corpo, sobre abuso ou prevenção não impede que isso aconteça. Pelo contrário, expõe ainda mais.
A curiosidade sobre o corpo humano é natural. Assim como a gente descobre as mãos, a gente também descobre o corpo. Mas como não fomos ensinados a falar sobre isso, vira tabu. Dizem até que é pecado falar sobre o próprio corpo, sendo que ele é essencial para o nosso funcionamento, inclusive para a nossa saúde.
Hoje, com a internet e as redes sociais, temos acesso à informação, mas é preciso saber filtrar o que é correto. Educação sexual também é falar sobre menstruação, sobre o corpo feminino, sobre saúde.
E mesmo dentro de famílias com princípios religiosos, onde se acredita que o relacionamento deve acontecer apenas após o casamento, é importante orientar. Ensinar o que se acredita, sim, mas também preparar para a realidade, caso aconteça, para que haja proteção e consciência.
Se você é um jovem que tem dúvidas e não tem abertura em casa, procure um posto de saúde. Busque ajuda. Existem também canais de denúncia como o Disque 100, o Conselho Tutelar, o CREAS e o Fala São Paulo, que auxiliam na proteção de crianças e adolescentes.
Hoje existem diversos métodos contraceptivos gratuitos pelo SUS, como preservativos, anticoncepcionais e injetáveis. Em Cubatão, existe também o implante hormonal, conhecido como Implanon, que é um dos métodos mais eficazes e pode ser utilizado inclusive por adolescentes, como forma de prevenção.
Às vezes, as pessoas pensam que oferecer esses métodos é incentivar o início da vida sexual, mas não é.
É proteger.
É cuidar.
Se minha filha me conta que está tendo um relacionamento, não adianta apenas brigar ou ignorar. A partir desse momento, é minha responsabilidade orientar, ensinar e proteger.
E é importante lembrar que o preservativo também previne infecções sexualmente transmissíveis, não apenas a gravidez.
Quando falamos de prevenção, muitas vezes focamos apenas nas meninas, mas os meninos também precisam ser incluídos. Eles também estão se tornando pais precocemente, também enfrentam falta de orientação, também estão expostos a conteúdos inadequados, como a pornografia, muitas vezes de forma precoce e sem acompanhamento.
Eles também precisam aprender sobre respeito, responsabilidade e prevenção.
Quando eu falo da minha história, não é para romantizar a gravidez precoce.
É para orientar.
Julgar não muda a realidade de ninguém.
O que muda é acolhimento e direção.
O que me trouxe até aqui foram pessoas que não me julgaram, que me mostraram que havia um caminho.
Se você é uma menina que está passando por isso, ou um menino que se tornou pai cedo, existe um caminho. Existe apoio, existe cuidado, existe possibilidade de reconstrução.
Projetos gratuitos, acompanhamento pelo SUS, pré-natal adequado tudo isso existe e precisa ser acessado. Nós precisamos evitar a gravidez precoce, mas quando ela acontece, não podemos fechar os olhos. Precisamos apoiar, orientar e ajudar esse jovem a construir um novo caminho.
Em Cubatão, temos o privilégio de contar com uma gestão que se preocupa com essa pauta. O prefeito César Nascimento, a secretária da Mulher Jaque Barbosa e a subprefeita Andréia Castro demonstram apoio à juventude e às causas sociais, fortalecendo ações que fazem a diferença na vida de muitas famílias.
E também temos o Jornal Acontece, que cumpre um papel fundamental de levar informação acessível à população, abrindo espaço para diálogos necessários como esse.
Não romantize a gravidez precoce.
Mas também não abandone quem já está vivendo essa realidade. Porque ali não existe só uma vida. Existem duas.
E quando a gente escolhe orientar, acolher e informar, a gente transforma histórias e constrói futuros.