30 de junho de 2026
Desperdício desafia construção civil nas cidades
Setor busca produtividade com tecnologia, mas ainda perde valor econômico com materiais descartados nos canteiros de obras.
A construção civil brasileira avança em tecnologia, industrialização e inteligência operacional, mas ainda enfrenta um problema antigo com forte impacto econômico: o desperdício de materiais nos canteiros de obras. Segundo levantamento da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição, a Abrecon, o país deixa de reciclar cerca de 41,2 milhões de metros cúbicos de resíduos por ano. O volume revela um desafio que ultrapassa a questão ambiental e coloca em debate quanto valor financeiro é perdido quando materiais descartados deixam de retornar à cadeia produtiva.
Produtividade segue como desafio do setor
A discussão ganha força em um momento de pressão por mais eficiência. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria aponta que a produtividade da construção civil acumulou queda de 20,4% nos últimos 30 anos, mesmo com a chegada de novas tecnologias, softwares de gestão, BIM, inteligência artificial e processos mais industrializados.
Esse contraste mostra que a produtividade não depende apenas de ferramentas modernas. Em muitos casos, parte das perdas ocorre em etapas tradicionais da operação, como compra, uso, descarte e destinação de materiais. Quando esses processos não são acompanhados com precisão, recursos já pagos pelas empresas saem da obra sem gerar retorno.
Nas grandes cidades, onde os custos de operação, transporte e descarte costumam ser mais altos, a má gestão dos resíduos pode pesar ainda mais nos resultados. Por isso, o tema começa a deixar de ser visto apenas como uma obrigação ambiental e passa a entrar na conta econômica das construtoras.
Resíduos ainda são tratados como custo operacional

Para Eduardo Nascimento, fundador da Minha Coleta, o setor começa a passar por uma mudança de mentalidade. “Durante muito tempo, os resíduos foram vistos apenas como uma consequência inevitável da operação. Agora, o setor começa a perceber que parte importante da eficiência está justamente naquilo que acontece depois que o material deixa o canteiro”, afirma.
Segundo o executivo, as construtoras avançaram muito no controle de compras, estoques, cronogramas e produtividade, mas ainda têm pouca visibilidade sobre o valor econômico que se perde no descarte. Com isso, materiais com potencial de reaproveitamento ou reciclagem continuam sendo tratados apenas como custo.
“As empresas sabem exatamente quanto investem para comprar materiais, mas poucas conseguem calcular quanto valor está saindo diariamente junto com aquilo que é descartado. Em muitos casos, estamos falando de recursos que poderiam retornar para cadeias produtivas, gerar novas receitas ou reduzir custos operacionais”, destaca Nascimento.
Economia circular ganha espaço nas obras
A ampliação do debate sobre economia circular no Brasil também ajuda a fortalecer a discussão. A proposta é manter materiais em uso pelo maior tempo possível, reduzindo desperdícios e criando novas oportunidades econômicas a partir da reciclagem e do reaproveitamento.
Na construção civil, esse conceito pode envolver concreto, madeira, metais, plásticos, cerâmicas, embalagens e outros materiais gerados durante a obra. Quando há separação correta, rastreamento e conexão com operadores especializados, parte desses resíduos pode voltar ao ciclo produtivo em vez de seguir para destinações de baixo valor.
Mudanças regulatórias também contribuem para esse movimento. A reforma tributária trouxe mecanismos voltados ao fortalecimento da cadeia da reciclagem e à formalização do setor, criando um ambiente mais favorável para empresas que passam a enxergar resíduos como ativos econômicos.
Gargalo está na conexão da cadeia
Na avaliação da Minha Coleta, o principal problema não está necessariamente na falta de tecnologia ou de operadores. O desafio está em conectar construtoras, transportadores, recicladores, cooperativas, áreas de triagem e empresas capazes de reinserir materiais em novas cadeias produtivas.
“O setor evoluiu muito na gestão do início da obra. Hoje existem ferramentas sofisticadas para controlar orçamento, produtividade e cronograma. Mas ainda existe pouca inteligência aplicada ao que acontece quando os materiais deixam a operação. É justamente nesse ponto que muitas oportunidades acabam ficando pelo caminho”, afirma Nascimento.
Para transformar o descarte em etapa estratégica, é necessário gerar indicadores, medir volumes, identificar tipos de materiais e acompanhar a destinação. Sem dados, o resíduo segue invisível dentro da gestão financeira da obra.
Empresas já medem recuperação de materiais
Alguns resultados mostram que há espaço para avanço. Em projetos realizados com a Cyrela, a Minha Coleta registrou taxa de recuperação de 57% dos materiais gerados em 13 obras simultâneas. Considerando todas as operações gerenciadas pela plataforma, a greentech afirma já ter administrado mais de 250 mil toneladas de resíduos, com taxa média de recuperação de 42%.
Os números indicam que a gestão estruturada pode ampliar o reaproveitamento, reduzir custos com descarte e gerar informações importantes para decisões futuras. Mais do que cumprir exigências ambientais, empresas passam a usar a destinação de materiais como parte da estratégia de produtividade.
Para Nascimento, essa pode ser uma das próximas fronteiras do setor. “Durante muito tempo, produtividade significou produzir mais gastando menos. Agora, as empresas começam a perceber que produtividade também passa por aproveitar melhor os recursos que já foram comprados. O material mais caro é aquele que entra na obra e sai sem gerar valor”, afirma.
Reduzir perdas deve ganhar mais importância
A tendência é que o desperdício de materiais ocupe mais espaço nas decisões das construtoras, especialmente em grandes centros urbanos. Em um setor pressionado por custos, prazos e competitividade, cada metro cúbico descartado sem aproveitamento representa perda de eficiência e de oportunidade econômica.
Para as cidades, o impacto também é relevante. Melhor gestão de resíduos reduz pressão sobre áreas de descarte, fortalece cadeias de reciclagem, diminui perdas logísticas e pode contribuir para obras mais sustentáveis e produtivas.
A construção civil segue buscando respostas em tecnologia, inteligência artificial e industrialização. Mas parte da produtividade que o setor procura pode estar justamente em olhar com mais atenção para aquilo que ainda sai dos canteiros como entulho.