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30 de dezembro de 2022

Cubatão, nos tempos do Gasolina e do Pelé

 | Jornal Acontece
Carreira do Rei do Futebol esteve bastante ligada a esta cidade
 

Edson, aquele adolescente mineiro conhecido pelo apelido de Gasolina, que poucas semanas antes ingressara no time amador do Santos F.C., começa a sua ligação com os cubatenses em 1956, num momento importante para ele: jogou contra um time local no exato momento em que passava a atuar na equipe titular do clube de Santos. Em 1972, como Pelé, estrelou um filme baseado em obra do importante escritor cubatense Afonso Schmidt, A Marcha. Voltou à cidade anos depois para inaugurar uma escolinha de futebol para crianças e adolescentes, que recebeu seu nome. E nenhum desses momentos foi esquecido pela comunidade cubatense.

 

Várzea – No núcleo Fabril da metade do século passado, um time de futebol de várzea brilhava: o Comercial Santista F.C., vice-campeão amador do Interior Paulista que anos depois, em 1965, se sagraria campeão da Liga de Futebol Amador do Litoral.

 

São de um antigo presidente do clube, o ex-presidente da Câmara Municipal cubatense Romeu Magalhães, as memórias que nos fazem viajar a um tempo ainda mais recuado, em que o garotinho de Três Corações, recém integrado ao time amador do Santos FC, chegou à Vila Fabril para o jogo contra o Comercial.

 

Antes da partida, os visitantes tinham sido aconselhados pelo técnico do Comercial, Argemiro Cascardi, a levarem um time reforçado, pois ele não queria passar a vergonha de ganhar muito fácil do alvinegro santista…

 

Galinhas, pintinhos e frangos – Nessa época era assim: até galinhas ciscavam na beirada do gramado, no estádio que seria então inaugurado na Fabril. E aquele menino de 15 anos que, diziam, dava nó em pingo d’água, resolveu correr atrás de uma galinha e seus pintinhos…

 

Romeu viu e riu. Mas não por muito tempo, pois, assim que o jogo começou, o garotinho Gasolina deu um chapéu no beque Tião: a bola destinada a esse ex-jogador do Flamengo de repente sumiu e – quando todos olharam de novo –, já estava dentro do gol do Comercial. Inconformado, Tião perguntou ao menino como ele deu aquele drible tão rápido: Gasolina respondeu humildemente que tinha sido um lance de sorte.

 

Em vez dos pintinhos, o centroavante Romeu e os torcedores do clube local começaram a se preocupar com os muitos frangos que o goleiro do time anfitrião teria de engolir, justo no seu dia de festa. Basta dizer que o jogo terminou em 7 a 1, com o Gasolina marcando cinco dos gols que dariam a vitória ao Santos FC.

 

Este jogo clássico da uma ensolarada manhã de sábado, 8 de setembro de 1956, foi o último de Gasolina no time amador do Santos FC. Estava nascendo o Pelé, que justo no dia anterior, pelo time profissional do Peixe, registrava o primeiro gol oficial de sua carreira, numa partida contra o Corinthians de Santo André. No ano seguinte, já comandava o time principal e, um mês antes de completar o 17º aniversário, Pelé fazia sua estreia internacional. Em 1958, conquistou na Suécia a primeira de suas três Copas do Mundo, que dariam ao Brasil a posse definitiva da Taça Jules Rimet.

 

Na Marcha de Afonso Schmidt – Em 1972, o diretor e roteirista Osvaldo Sampaio realizou o filme “inspirado na obra de Afonso Schmidt” A Marcha, tendo Pelé no papel do escravo abolicionista Chico Bondade, contracenando com os consagrados Paulo Goulart, Nicete Bruno, Rodolfo Mayer, Verah Sampaio e outros nomes respeitados na cena teatral da época.

 

Na apresentação do filme, lembrava-se que Pelé “é o que se convencionou chamar de fora-de-série: rei do futebol, embaixador da simpatia e agora astro do cinema nacional (…), figura ímpar de nosso mundo contemporâneo, num contato mais direto com a mais nobre e eclética de todas as artes, o cinema. Pelé ator, enfrentando as câmeras com a classe e a garra de um veterano”.

 

O autor da importante obra literária que deu origem ao polêmico filme foi um escritor cubatense que se sagrou entre os mais destacados do Brasil, Afonso Schmidt. Mesmo criticando a adaptação do texto para o cinema, a irmã do escritor, Maria Clara Schmidt, e outros familiares, não deixaram de registrar, em carta de junho de 1971 ao jornal Folha de São Paulo, sua satisfação ao ver “Pelé, o bem amado Pelé, trabalhando nesse filme. Era a obra querida do autor e, se fosse vivo, isso lhe causaria muita alegria, grande amigo e admirador da raça negra, que era”.

 

Um novo Gasolina – “Considerando os memoráveis feitos futebolísticos do extraordinário atleta Pelé; (…) que os seus excepcionais atributos de atleta e de cidadão despertaram a atenção de todas as nações (…), expressa no mais significativo título (…) de ‘Atleta do Século’, que lhe foi entregue em Paris (França) em 1981; sua permanente preocupação com a criança, fazendo manifestações públicas em defesa delas em ocasiões memoráveis, como ocorreu quando marcou o milésimo gol de sua gloriosa carreira (…)” a Câmara Municipal de Cubatão resolveu denominar ‘Edson Arantes do Nascimento – Pelé’ a escolinha de esportes criada pelo decreto 5841/1989, “dentro do objetivo de iniciação desportiva na infância, desenvolvendo novos e futuros atletas (…)”.

 

Desta forma, o Legislativo cubatense homenageou o ídolo do futebol, pelo decreto municipal 5.941, de 19/2/1980, assinado pelo então prefeito Nei Eduardo Serra.

 

Pelé voltaria à cidade para uma palestra dirigida a estudantes da rede municipal de ensino, no Centro Esportivo Castelo Branco, sobre a importância do Esporte na formação do cidadão. A matéria do jornalista Thiago Macedo, publicada no jornal A Tribuna de 12 de julho de 2009, concluía: “Quem sabe, entre as crianças que encontrarão o Rei do Futebol, não tenha alguma que seja conhecida como Gasolina.”

 

Texto: Carlos Pimentel Mendes
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