25 de março de 2026
Cubatão, startups e o futuro que já chegou
No último sábado, 21 de março, Cubatão viveu uma cena que, alguns anos atrás, muita gente diria que “não combina” com a cidade: um sábado de manhã, Bloco Cultural José Edgard da Silva cheio de gente falando de tecnologia, logística inteligente, transformação digital e profissões do futuro. Era o Startup Day Cubatão 2026, iniciativa do Sebrae com apoio da Prefeitura. E eu arrisco dizer: esse tipo de encontro diz muito sobre o futuro da cidade e do Brasil.
Quando a gente fala de startup, parece algo distante, “coisa de São Paulo, de capital, de Vale do Silício”. Mas os números mostram outra história. A Associação Brasileira de Startups (ABStartups) já mapeia mais de 13 mil startups ativas no Brasil, espalhadas por todos os estados. O Sebrae vem mostrando, em seus relatórios, que esse ecossistema gera dezenas de milhares de empregos qualificados e atrai bilhões em investimentos. Ou seja: startup não é mais modinha, é um pedaço importante da economia.
E onde entra Cubatão nessa conversa? Entra justamente quando traz o Startup Day para cá. O evento é nacional, acontece em várias cidades ao mesmo tempo, e tem um objetivo claro: democratizar a inovação, tirar o assunto dos grandes centros e trazer para lugares como o nosso. Segundo o próprio Sebrae, já são dezenas de milhares de participantes em todas as edições pelo país, muita gente que teve ali o primeiro contato com esse universo e, depois, abriu ou acelerou seu negócio.
Em Cubatão, o cardápio de temas foi cirúrgico:
– Logística inteligente
– Transformação digital no setor público
– Profissões do futuro
Logística não é teoria por aqui. Nós estamos em uma região industrial e logística estratégica, ligada ao Porto de Santos, com caminhão, trem, insumo e produto cruzando a cidade todos os dias. A ABStartups mostra que o setor de logtechs startups focadas em transporte, armazenagem, rota, rastreio está entre os que mais crescem no país, muito por causa do e‑commerce e da busca por eficiência. Quando Cubatão discute logística inteligente num Startup Day, não é “papo de palco”: é discutir como a cidade pode ser mais competitiva e sustentável.
A transformação digital no setor público é outro ponto que, se a gente olhar de perto, mexe com a vida de todo mundo. Estudos como o Índice de Governança Digital da ABEP‑TIC e levantamentos do Connected Smart Cities mostram: a maioria das prefeituras brasileiras já começou algum tipo de digitalização, mas ainda patina em integração, usabilidade e dados. Levar esse tema para um evento de startups é uma mensagem clara: inovação não pode ficar só na iniciativa privada, tem que atravessar o balcão da prefeitura e chegar no serviço que o cidadão usa.
E aí vem a pauta que talvez toque mais gente diretamente: profissões do futuro. O Fórum Econômico Mundial repete, em seus relatórios, que boa parte dos trabalhos da próxima década ainda está em transformação. No Brasil, a Brasscom, que representa o setor de tecnologia, fala em centenas de milhares de vagas em TI até meados desta década, com um déficit grande de profissionais formados. Traduzindo: tem emprego surgindo, mas falta gente qualificada.
Quando um evento como o Startup Day traz esse tema para Cubatão, ele está falando com o jovem que não sabe que área escolher, com o trabalhador que pensa em se reinventar, com quem acha que “isso de tecnologia não é pra mim”. É, sim. E, se a cidade for inteligente, vai usar essa agenda para aproximar escola, cursos técnicos, universidade e empresas.
Tem um ponto que me chamou atenção, conversando com participantes após o evento e acompanhando as reações nas redes: uma mistura de empolgação e pé no chão. Empolgação porque é visível a vontade de empreender, de inovar, de ver Cubatão mais conectada com o que está acontecendo no Brasil. Pé no chão porque ninguém é ingênuo: falta acesso a investimento, falta infraestrutura em alguns pontos, falta preparo técnico e falta, principalmente, continuidade.
E é aqui que eu quero insistir. O Sebrae tem mostrado, em estudos sobre ecossistemas locais, que cidades onde iniciativas como o Startup Day viram rotina e não evento isolado acabam registrando crescimento maior de novos negócios inovadores e uma taxa melhor de sobrevivência das empresas. Em outras palavras: não adianta fazer uma edição bonita, tirar foto, postar no Instagram e “até o ano que vem”. É preciso conectar o evento com uma trilha: capacitação, mentoria, edital, espaço de inovação, aproximação com indústria e comércio.
Cubatão sempre carregou a marca de cidade industrial. Isso é parte da nossa história e da nossa força. Mas o mundo está mudando: fala‑se em indústria 4.0, em automação, em inteligência artificial, em cadeias logísticas integradas. Se a cidade não se mexer, corre o risco de ver decisões importantes sendo tomadas longe daqui. O Startup Day 2026 mostra um outro caminho: usar a nossa vocação industrial como base e trazer a camada da tecnologia por cima.
No fim das contas, o que o Startup Day Cubatão 2026 deixou foi uma mensagem simples, mas poderosa:
– Inovação não é privilégio da capital;
– Startup não é coisa distante da nossa realidade;
– E o futuro do trabalho e da economia passa, sim, por cidades como a nossa.
Se esse sábado foi um ponto fora da curva ou o começo de uma nova fase, isso não depende só do Sebrae ou da Prefeitura. Depende da forma como a cidade empresários, educadores, jovens, lideranças comunitárias vão reagir a esse sinal.
O futuro não espera. No dia 21 de março, ele deu as caras no Bloco Cultural José Edgard da Silva. Cabe a nós decidir se foi apenas uma visita ou o início de uma mudança de endereço.