15 de abril de 2026
Identidade racial: quando não aprendemos, repetimos — e podemos ferir
Reflexão sobre pertencimento, letramento racial e a importância do conhecimento para evitar preconceitos
Quando a gente não aprende, a gente repete — e, às vezes, machuca.
Eu cresci em um lar onde não existia letramento racial.
Então cresci com dúvida. Muita dúvida.
Eu sou uma mulher parda.
Mas percebi algo curioso — e talvez você também já tenha sentido:
quando estou entre pessoas brancas, muitas vezes não me leem como negra.
E, quando estou entre pessoas negras, principalmente quando não há estudo sobre identidade racial, também não me leem.
E aí fica a pergunta dentro da cabeça:
afinal, onde eu pertenço?
Essa confusão não é só minha.
Ela acontece com muita gente num país como o nosso, onde quase todo mundo tem mistura na família, mas pouca conversa sobre isso.
O perigo de falar sem entender
Em vez de ignorar essa inquietação, eu fui estudar.
Porque tem uma coisa importante:
quando a gente opina sobre algo que não entende, pode ferir o outro — e até praticar racismo.
E racismo não é só ofensa.
Ele adoece, isola e, muitas vezes, mata.
Recentemente, perdemos o psicólogo e pesquisador Lucas Veiga, um intelectual que lutava justamente contra o racismo.
O peso dessa violência diária também é psicológico. Também é emocional.
Por isso, conhecimento não é luxo.
É proteção.
Então… pardo é negro?
Eu aprendi algo que mudou minha forma de me enxergar:
Socialmente, preto e pardo não são iguais.
Mas, na vivência social, muitas vezes são lidos de forma semelhante: como pessoas negras.
Eu sou parda.
Filha de mãe negra, pai pardo, com ancestrais indígenas e traços negros no corpo, no nariz, no biotipo.
Ninguém foge da própria história.
Por isso, quando eu me declaro parda, eu também estou falando de negritude.
De pertencimento.
De reconhecer de onde venho.
Informação hoje é acessível
Hoje a gente pode pesquisar.
Pode ouvir quem vive e quem estuda.
Muita gente conhece o ator Lázaro Ramos pela televisão, mas nem todo mundo sabe que ele escreve livros falando justamente sobre identidade, autoestima e raça.
E não precisa ser caro:
sebos (lojas de livros usados) vendem por 7, 10 reais aquilo que custaria 70 numa livraria.
Ou seja: dá pra aprender.
Porque isso também é educação.
O impacto nas próximas gerações
Nós estamos educando crianças.
E elas vão repetir aquilo que aprendem — ou aquilo que nunca foi conversado.
Falar de raça é falar de respeito.
É falar de atravessar menos o outro.
É entender a própria história.
Da mesma forma que eu preciso conhecer meu corpo e minhas emoções, eu preciso conhecer minhas origens.
Identidade também é formação
Isso também é educação sexual:
porque envolve identidade, pertencimento, autoestima e dignidade.
Pra gente refletir…
Vivemos num país miscigenado — mistura de povos, culturas e histórias.
Mas mistura sem diálogo vira silêncio.
E silêncio vira preconceito.
Então fica o convite:
– Estudar
– Conversar
– Fazer rodas de diálogo
– Ouvir quem vive a realidade
Conhecimento não separa pessoas.
Ele aproxima — e impede que a gente machuque sem perceber.
A reflexão de hoje é simples:
antes de discutir identidade, aprenda.
Porque entender o outro também é uma forma de cuidado.
Vamos juntas, aprendendo…