17 de junho de 2026
Nudez
Qual é a necessidade de falar sobre esta temática em nossos lares com nosso jovens e adolescentes?
A nudez nos acompanha desde o nascimento. Ela faz parte da existência humana, mas, paradoxalmente, é um dos assuntos sobre os quais menos conversamos de forma saudável.
Quando falamos sobre nudez, não estamos falando apenas de um corpo sem roupas. Estamos falando de respeito, privacidade, consentimento, limites, vulnerabilidade, proteção e humanidade.
A forma como enxergamos a nudez influencia diretamente nossas atitudes. Quantas vezes a sociedade responsabiliza uma mulher por sofrer violência por causa da roupa que usa? Quantas vezes ouvimos que alguém estava “provocando” por mostrar mais o corpo?
Mas se a nudez justificasse a violência, como explicar os casos de crianças violentadas ainda usando fraldas? Como justificar abusos cometidos contra pessoas incapazes de se defender? A verdade é simples e dura: a violência nunca está no corpo de quem sofre. Ela está na escolha de quem viola.
A nudez também nos faz refletir sobre comparação. Vivemos observando corpos, julgando medidas, formatos e aparências. Esquecemos que cada pessoa possui uma história, uma genética, uma rotina, uma alimentação, uma realidade e oportunidades diferentes. Não existem corpos iguais porque não existem vidas iguais.
Quando falamos sobre nudez, falamos também sobre respeito. Sobre a forma como olhamos o outro. Sobre como tocamos o outro. Sobre como falamos do outro.
E falamos, inclusive, sobre o fim da vida.
No nascimento, alguém nos limpa, nos acolhe e nos veste. Na despedida, alguém também cuidará do nosso corpo pela última vez. A nudez está presente no início e no fim da jornada humana. E nem mesmo nesses momentos ela deveria ser motivo para desrespeito. Ainda assim, infelizmente, há quem viole a dignidade humana até quando ela já não pode mais se defender.
Também normalizamos algumas situações sem refletir sobre os riscos. Achamos bonito publicar fotos de bebês nus, mostrar a bundinha da criança ou compartilhar imagens íntimas da infância. Fazemos isso por carinho, mas esquecemos que a maldade humana existe. Em tempos de tecnologia, uma imagem pode ser copiada, editada, compartilhada e utilizada de formas que jamais imaginamos.
Por isso, privacidade também é proteção.
Na adolescência, a conversa sobre nudez se torna ainda mais necessária. Muitos pais não querem que seus filhos enviem ou recebam imagens íntimas. Mas como esperar que eles saibam lidar com essas situações se nunca conversamos sobre elas?
Precisamos dizer aos nossos filhos:
“Se alguém enviar uma imagem íntima, não compartilhe.”
“Se alguém pedir uma foto sua, pense nos riscos.”
“Seu corpo merece respeito.”
A informação não incentiva comportamentos.
A informação protege.
Sabemos que, mesmo conversando, nossos filhos ainda podem cometer erros. Mas o silêncio nunca protegeu ninguém. Pelo contrário: aquilo que não é conversado dificilmente é compreendido.
Existem famílias em que a nudez é tratada com naturalidade. Outras preferem mais privacidade. E tudo bem. Cada lar possui sua cultura, seus valores e seus limites. O importante é que o respeito esteja presente em todas as formas de viver.
O que não pode faltar é o diálogo.
Precisamos ensinar às crianças para que servem as roupas íntimas, o que são partes íntimas, quem pode ajudá-las em determinados momentos e como reconhecer situações que causam desconforto. Precisamos ensiná-las que ninguém deve pedir fotos do seu corpo. Que elas podem dizer não. Que podem pedir ajuda.
Uma criança informada tem mais ferramentas para perceber situações de risco.
Uma criança informada entende que um pedido estranho em um jogo online não é apenas uma brincadeira.
Uma criança informada sabe que seu corpo merece respeito.
Falar sobre nudez não sexualiza crianças. O que protege crianças é a informação adequada para cada idade.
Talvez esteja na hora de entendermos que a nudez não é o problema. O problema está na falta de respeito, na objetificação, na violência e no silêncio.
A nudez faz parte da vida. O respeito também deveria fazer.
E é exatamente por isso que precisamos falar sobre ela.