14 de julho de 2026
Demitir não destrói a cultura. A forma como se demite, sim.
Na coluna deste mês, Wellington Aleixo analisa como processos de demissão mal conduzidos afetam confiança, clima interno e cultura organizacional.
Demitir não destrói a cultura. A forma como se demite, sim.
A reunião durou 11 minutos.
O gestor estava desconfortável. O profissional de Recursos Humanos tentou conduzir o processo de maneira técnica. O discurso foi rápido, objetivo e aparentemente eficiente.
“É uma reestruturação.”
“Não tem relação com seu desempenho.”
“Foi uma decisão da empresa.”
Poucos minutos depois, o profissional deixou a empresa levando seus pertences, algumas explicações e muitas perguntas sobre o que faria a partir daquele momento.
Essa situação, infelizmente, ainda é comum no mundo corporativo.
Muitas organizações tratam a demissão apenas como um procedimento operacional: uma decisão necessária, um ajuste de estrutura ou uma redução de custos.
Entretanto, uma demissão nunca afeta somente quem está deixando a empresa.
Ela também impacta quem fica.
Os colaboradores observam atentamente a maneira como seus colegas são desligados. Percebem se houve respeito, transparência, coerência e humanidade na condução do processo.
E, mesmo que ninguém verbalize, uma pergunta inevitavelmente começa a circular pelo ambiente de trabalho:
“Se um dia acontecer comigo, será dessa forma?”
É justamente nesses momentos que a verdadeira cultura organizacional aparece.
Não apenas nos discursos institucionais, nas campanhas internas ou nos valores escritos nas paredes da empresa, mas principalmente na maneira como a organização conduz suas decisões mais difíceis.
Uma demissão mal-conduzida pode provocar perda de confiança, insegurança coletiva e queda de desempenho.
Profissionais inseguros dificilmente trabalham melhor. Na maioria das vezes, tornam-se mais cautelosos, menos participativos e evitam assumir riscos ou propor novas ideias.
Existe ainda outro aspecto pouco discutido pelas organizações: o impacto emocional sobre aqueles que permanecem na empresa.
Após processos de desligamento, alguns colaboradores podem experimentar medo, insegurança, sobrecarga e incerteza em relação ao próprio futuro profissional.
Esses sentimentos nem sempre aparecem imediatamente nos indicadores ou relatórios de gestão.
Mas, com o tempo, podem ser percebidos no clima organizacional, na produtividade, no engajamento e até mesmo no aumento da rotatividade.
Por isso, conduzir uma demissão de maneira ética não significa evitar decisões difíceis.
Significa tomar decisões difíceis com responsabilidade.
Isso exige preparação da liderança, comunicação clara, respeito pelo profissional, coerência entre discurso e prática e, sempre que possível, algum direcionamento para a transição de carreira.
Empresas maduras compreendem que o relacionamento com um profissional não precisa terminar de maneira desrespeitosa simplesmente porque o vínculo de trabalho chegou ao fim.
A forma como uma organização recebe seus colaboradores é importante.
Mas a forma como ela se despede deles também diz muito sobre seus valores.
Além disso, vivemos em uma sociedade cada vez mais conectada. Experiências profissionais são compartilhadas nas redes sociais, em plataformas de avaliação de empresas e nas conversas entre profissionais do mercado.
Consequentemente, a maneira como uma empresa conduz seus desligamentos também influencia sua reputação e sua capacidade futura de atrair e reter talentos.
Existe uma reflexão que considero fundamental para líderes e organizações:
Você pode não controlar todas as circunstâncias que levam à necessidade de uma demissão.
Mas pode controlar a maneira como essa decisão será conduzida e lembrada.
Cultura organizacional não é apenas aquilo que uma empresa diz quando tudo está funcionando bem.
Cultura também é aquilo que ela demonstra quando precisa enfrentar momentos difíceis.
No final, talvez a pergunta mais importante não seja apenas porque uma empresa demite.
Mas como ela escolhe tratar as pessoas quando decide que chegou o momento de encerrar um ciclo profissional.
Porque decisões passam.
As pessoas seguem seus caminhos.
Mas a maneira como foram tratadas permanece na memória.